Do C3SL à modernização da infraestrutura digital brasileira

Em entrevista ao C3SL, Antonio Hobmeir Neto, egresso da UFPR e ex-bolsista do laboratório, conta como transformou a formação em pesquisa aplicada e software livre em base para uma carreira dedicada à modernização da TI pública brasileira
Antonio Hobmeir Neto é um dos nomes de maior destaque na tecnologia pública brasileira contemporânea. Diretor de Gestão de Infraestrutura de TIC da Dataprev, empresa pública federal responsável por organizar, processar e estruturar grandes volumes de informações sociais que sustentam benefícios e serviços digitais como MeuINSS, CTPS Digital e CadÚnico, Hobmeir ocupa posição de liderança em um dos pilares tecnológicos do Estado brasileiro.
Sua trajetória passa na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde cursou Ciência da Computação e aprofundou-se em pesquisa aplicada como bolsista do Centro de Computação Científica e Software Livre (C3SL). Para Hobmeir, essa formação não só foi essencial para desenvolver competências técnicas, como também moldou sua visão de que a pesquisa deve estar conectada à prática, especialmente quando o objetivo é gerar resultados concretos para a sociedade.
A pesquisa junto ao C3SL proporcionou a Hobmeir os primeiros contatos com desafios reais de aplicação tecnológica, gerenciamento de projetos multidisciplinares e um ambiente colaborativo que valoriza soluções de baixo custo e alto impacto, princípios que combinam diretamente com a filosofia do software livre e da computação científica aplicada. Essa experiência, segundo ele, também contribuiu para sua transição para o setor público, onde nuances como burocracia, escassez de recursos e necessidade de conciliar agendas diversas exigem não apenas conhecimento técnico, mas também habilidades de gestão e visão sistêmica.
Na Dataprev, a missão de Hobmeir vai além de manter sistemas de alto desempenho e segurança: envolve a modernização da infraestrutura de tecnologia da informação do Estado brasileiro, a expansão de serviços de nuvem com garantia de soberania digital, e a administração de plataformas que recebem milhões de acessos diários, garantindo que cidadãos tenham acesso ao serviço público de maneira cômoda e eficiente.
Esse percurso, desde as salas de pesquisa da UFPR até o comando de áreas estratégicas em tecnologia pública, não apenas destaca a importância da formação acadêmica sólida em ciência e engenharia, mas também evidencia como espaços como o C3SL e o Programa de Pós-Graduação em Informática (PPGInf) podem atuar como verdadeiros catalisadores de carreiras voltadas à solução de problemas complexos da sociedade através da inovação tecnológica, da gestão colaborativa e do compromisso com o bem comum.
Confira abaixo a entrevista de Hombeir ao C3SL. Esta reportagem integra uma série de entrevistas promovidas pelo Centro de Computação Científica e Software Livre (C3SL) e Dinf. A iniciativa busca destacar a trajetória e as contribuições de ex-bolsistas, alunos e pesquisadores que se destacam no campo da informática, mostrando a diversidade e o impacto das pesquisas desenvolvidas nesse ambiente acadêmico e tecnológico de excelência.
>>Como foi sua experiência no Programa de Pós-Graduação em Informática (PPGInf) da UFPR, e qual o impacto dessa formação na sua visão sobre pesquisa aplicada?
Ainda durante a graduação tive muito contato com a pesquisa e suas aplicações por ter sido bolsista do projeto PET e C3SL onde era possível levar a pesquisa até a prática. Durante o mestrado pude ter um contato mais profundo com a pesquisa e sempre tive a perspectiva de colocar em prática os resultados alcançados nela, entendo que a pesquisa, principalmente em instituições públicas devem, sempre que possível, buscar gerar resultados práticos para a sociedade com forma de retribuir o investimento.
>> Como o C3SL contribuiu para sua transição da academia para o setor público, especialmente em termos de software livre e computação científica?
Considero que ter tido a oportunidade de atuar junto ao C3SL me ajudou a enfrentar questões práticas que encontramos no setor público. O setor público possui uma série de nuances que precisam ser entendidas e corretamente administradas, ter essa habilidade de conseguir conciliar os resultados pretendidos, a burocracia, a agenda política e a escassez de recursos é sem dúvida ponto crucial para o sucesso de uma gestão, no C3SL pude experimentar um pouco de tudo isso.
>> Você poderia compartilhar uma memória marcante de sua época no C3SL?
Ficou em minha memória a sinergia que existia dentro do C3SL, que fazia com que professores, pesquisadores e alunos trabalhassem em sintonia sempre na perspectiva de entregar algo com qualidade e baixo custo para viabilizar a adoção de forma universal.
Olhando para trás, como o PPGInf e C3SL foram fundamentais para seu impacto na TI pública brasileira?
Certamente, foi ainda durante a graduação e participando do C3SL que comecei a entender o estado brasileiro e como a gestão pública poderia ser impulsionada por meio da TI.
>> Conte sobre sua ascensão na Dataprev, de superintendente a Diretor de Gestão de Infraestrutura de TIC, destacando modernizações de processos. De ex-estudante da UFPR a líder em uma estatal com mais de 3 mil colaboradores, o que define “sucesso” no setor público para você?
Desde que entrei no setor público sempre mantive uma inquietação com o que entendia que poderia ser melhorado, havia sempre um incomodo quanto trabalho desnecessário ou que pudesse ser feito pela máquina. Nesta inquietude, busquei sempre, de forma muito ativa, me posicionar e propor mudanças, melhorar processos, fluxos, sistemas, etc.
Acredito que a formação de TI, principalmente para quem é programador, faz com que possamos enxergar o mundo de forma sistêmica e isso sempre me ajudou a detectar oportunidades de melhoria e propor soluções. Claro que não é apenas com tecnologia e processos que se gera resultados, o principal é o fator humano. Nesta caminhada aprendi como agregar pessoas, diversificar ideias, mapear talentos e alinhar times para um objetivo comum, vestindo o camisa de líder e gestor ao mesmo tempo.
Para aqueles que são do setor público, sucesso deve significar que se nosso trabalho está contribuindo para termos um país mais inclusivo, justo, digno e eficiente.
>> Na Dataprev, como a empresa organiza informações sociais para fortalecer a Infraestrutura Nacional de Dados e a soberania digital?
A Dataprev se consolidou em seus 51 anos em agregar informações, qualificar e estruturar seu consumo. Graças a esta capacidade a empresa foi amplamente reconhecida nos últimos anos com entregas relevantes como Auxílio Emergencial e Auxílio Reconstrução. No momento a empresa passa por uma expansão de dados, ampliando suas fontes e integrando com os ecossistemas existente, um exemplo, são o CAR (cadastro ambiental rural) e CIN (carteira de identificação nacional) que irão trazer novas perspectivas de avanço do governo digital. Como resultado hoje temos 5 milhões de acessos diários em três grandes plataformas que operamos (Meu INSS, CTPS Digital e CADUNICO), isso significa que 5 milhões de pessoas puderam ter acesso ao serviço público de forma cômoda, sem a necessidade de tempo e deslocamento para um equipamento público.
Do aspecto de soberania digital, temos que entender que existem graus de soberania, nossa linha estratégica é adotar posturas diferenciadas a depender do dado ou transação do estado, trazendo mais soberania para aquelas que são mais críticas.
>> Quais riscos à soberania digital o Brasil enfrenta hoje, e como sua experiência no C3SL em software livre mitiga isso?
Existem muitas perspectivas sobre a soberania digital, se formos analisar de forma profunda, estaríamos falando desde chipsets até algoritmos de criptografia. Acredito que o Brasil, assim como vários outros países, está mais atentos as possibilidades de diversidade de fornecedores. O mundo encontra-se num momento instável e o melhor é ter opções para ter mais capacidade de se adaptar as adversidades. Nesta linha, software livre sempre é uma boa opção e devemos se atentar a ela apesar de apresentar seus desafios também.
>> Para bolsistas atuais do C3SL, qual conselho você dá sobre pesquisa sociotécnica e carreiras em infraestrutura nacional?
A tecnologia deve sempre resolver um problema e não ser parte dele, sempre levo este lema comigo. Muitas pessoas passam anos informatizando um problema, transferindo-o para o digital e não solucionando. O pensamento tem que ser mais amplo, irrestrito e sistêmico, a TI deve entrar para operacionalizar a solução desenhada. E se tenho um bom conselho, este seria: não esqueça das pessoas, porque no fundo são elas que consagram o sucesso de um projeto, se elas forem esquecidas no caminho a solução, depois de um tempo, fará parte do problema.