Infraestrutura invisível: a pesquisa que sustenta os serviços digitais do cotidiano

Infraestrutura invisível: a pesquisa que sustenta os serviços digitais do cotidiano

Professor da UFPR e pesquisador do C3SL, Giovanni Venâncio atua no desenvolvimento de sistemas distribuídos, com foco em alta disponibilidade, tolerância a falhas e infraestrutura digital

Em um cenário cada vez mais dependente de serviços digitais, de plataformas governamentais a aplicações cotidianas, a confiabilidade da infraestrutura computacional tornou-se um elemento central para o funcionamento da sociedade. Por trás desses sistemas, que operam de forma contínua e muitas vezes invisível para o usuário, estão pesquisas dedicadas a garantir disponibilidade, segurança e desempenho em larga escala. É nesse contexto que atua o professor Giovanni Venâncio, do Departamento de Informática da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador do C3SL.

Formado pela própria UFPR, onde percorreu toda a trajetória acadêmica desde a graduação até o doutorado, Giovanni construiu sua atuação na área de redes e sistemas distribuídos a partir de um interesse que surgiu ainda nos primeiros anos de formação. Ao longo desse percurso, consolidou sua pesquisa em temas como alta disponibilidade, tolerância a falhas e virtualização de infraestrutura. Estas são áreas fundamentais para o funcionamento de serviços digitais críticos.

Sua trajetória também é marcada pela articulação entre teoria e prática. Durante o mestrado e doutorado, participou de projetos colaborativos e grupos de trabalho em nível nacional, incluindo iniciativas ligadas à Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), onde atuou no desenvolvimento de plataformas de virtualização. Essas experiências ampliaram sua atuação para além do ambiente acadêmico, conectando pesquisa aplicada a desafios reais de infraestrutura.

Hoje, como professor e pesquisador, Giovanni desenvolve estudos que dialogam diretamente com transformações recentes da computação, como a expansão da nuvem e da computação em borda, mantendo como eixo central a construção de sistemas resilientes, capazes de operar de forma confiável mesmo em cenários de falha. Sua atuação no C3SL reforça essa perspectiva, ao integrar pesquisa, desenvolvimento tecnológico e compromisso com o software livre na construção de infraestruturas digitais públicas.

Na entrevista a seguir, Giovanni Venâncio fala sobre sua trajetória acadêmica, suas áreas de pesquisa e os desafios da construção de infraestruturas digitais robustas e confiáveis.

Como a sua trajetória na Universidade Federal do Paraná te levou a atuar com infraestrutura de redes e sistemas distribuídos? Desde a época da graduação, eu gostei muito das disciplinas de redes de computadores. Acabei fazendo outras optativas relacionadas à área, inclusive de sistemas distribuídos. A partir daí eu resolvi seguir mestrado e doutorado na mesma linha, atuando em cenários e contextos diferentes. Em um certo momento até tive dúvidas sobre seguir na área de redes ou migrar para banco de dados, mas acabei seguindo na linha de redes e sistemas distribuídos.

Em que momento você percebeu que queria seguir na pesquisa acadêmica? Isso eu descobri alguns anos depois, somente no doutorado. Desde o final da graduação até o mestrado, eu sabia que não queria trabalhar como desenvolvedor. Por isso, segui direto para a pós-graduação. Entre o fim do mestrado e o início do doutorado, tive o primeiro contato com o ensino, ministrando algumas aulas junto com o meu orientador. Na metade do doutorado, entrei como professor substituto na UFPR. Gostei bastante da experiência e foi a comprovação de que eu queria seguir na carreira acadêmica.

 

Quais experiências durante a sua formação foram decisivas para direcionar sua atuação nas áreas em que você pesquisa atualmente? Durante o mestrado tive várias publicações nessa linha de pesquisa. Isso me levou a participar de várias conferências e viagens para apresentar esses trabalhos. Em uma dessas viagens, conheci o pessoal da UFRGS, que estava em parceria com a UFPR em um grupo de trabalho da RNP para projetar e implementar uma plataforma de virtualização de funções de rede. Entrei nesse grupo e trabalhei lá durante dois anos. Nesse período, consegui aplicar conhecimentos na prática, o que também resultou em várias publicações na área.

 

Como suas pesquisas dialogam com transformações recentes, como a expansão da computação em nuvem e na borda? As áreas com as quais eu trabalho, principalmente alta disponibilidade e tolerância a falhas, são transversais a outras tecnologias e modelos computacionais atuais. Sempre que uma nova tecnologia surge, como a computação em nuvem ou na borda, tais preocupações passam a ser imediatas. Requisitos de disponibilidade, falhas e segurança acompanham praticamente todo avanço na computação.

 

De que forma pesquisas em infraestrutura de redes impactam serviços digitais utilizados no cotidiano da população? Apesar de que o usuário interage somente com o produto final ou com o serviço oferecido, devemos lembrar que as infraestruturas de redes formam a base fundamental de qualquer serviço digital. Um projeto de infraestrutura deve atender a requisitos de confiabilidade, alta velocidade, segurança e tolerância a falhas de forma transparente para o usuário. Para isso, é preciso tomar decisões de projeto que alinhem esses requisitos à demanda real dos usuários e do serviço como um todo.

Como você vê o papel da UFPR e do C3SL, e das demais universidades públicas, no futuro da infraestrutura digital no Brasil? Como a cultura do C3SL sempre foi de oferecer software livre, haverá iniciativas para remover totalmente a dependência tecnológica proprietária que temos hoje. Inicialmente podemos pensar em um contexto local da UFPR, mas futuramente propagando a ideia para outras universidades públicas. Hoje temos informações e dados sensíveis que estão sendo processados e gerenciados por tecnologia proprietária de empresas internacionais. Ao propagar a cultura de software livre, podemos chegar a um momento em que dados são processados de forma soberana e aberta. Além disso, podemos também reduzir significativamente o custo financeiro dessas soluções proprietárias.

Você integra a equipe de pesquisadores seniores do C3SL, e já foi bolsista do centro de computação. O que diferencia o ambiente de pesquisa do C3SL em relação a outros espaços acadêmicos? Durante a minha graduação eu fui bolsista do C3SL, e foi um período de muito conhecimento. Lembro que a minha primeira tarefa foi bem desafiadora, porque eu tive que aprender várias tecnologias na prática. Do ponto de vista dos bolsistas, eu acredito que essas tarefas permitem um crescimento muito significativo em termos de conhecimento, e de colocar em prática conceitos que muitas vezes são vistos somente na teoria durante a graduação. Do ponto de vista do espaço acadêmico, acredito que os projetos executados pelo C3SL acabam tendo um impacto mais direto e imediato na sociedade.

Quais são as principais frentes de pesquisa que você pretende desenvolver no C3SL nos próximos anos? Gostaria de contribuir com o conhecimento que tenho hoje para pesquisas no âmbito da oferta de serviços altamente disponíveis e tolerantes a falhas. Além disso, buscar soluções inovadoras que possam contribuir, não somente na pesquisa, mas também na infraestrutura física do departamento, oferecendo serviços modernos e escaláveis.