Invisível, Inteligente e Humana: palestra de pesquisador do C3SL debate a nova fronteira da inovação médica

Invisível, Inteligente e Humana: palestra de pesquisador do C3SL debate a nova fronteira da inovação médica

O bolsista e pesquisador do Centro de Computação Científica e Software Livre da UFPR (C3SL), Jonas Lopes Guerra, ministrou a palestra “Invisível, Inteligente e Humana: a Nova Fronteira da Inovação Médica” para estudantes de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a convite da Liga Acadêmica de Inovação em Medicina.

Com mais de 18 anos de atuação nas áreas de tecnologia e comunicação, Jonas é mestrando em Informática pela UFPR e pesquisador em Interação Humano-Computador (IHC), com foco em simplicidade e design socialmente consciente. No C3SL, integra iniciativas voltadas ao desenvolvimento de soluções públicas para instituições como o Ministério da Saúde, o Ministério da Educação e a própria universidade.

Tecnologia, inovação e valor em saúde

A palestra do pesquisador falou de uma distinção fundamental: nem toda tecnologia representa inovação. Enquanto a tecnologia se refere à aplicação de conhecimento técnico para resolver problemas concretos, a inovação só se concretiza quando gera valor real e mensurável.

Na área da saúde, esse valor pode ser observado em três dimensões principais: melhora de desfechos clínicos, otimização do tempo dos profissionais e ampliação do acesso aos serviços. Sem esses impactos, a adoção tecnológica tende a ser apenas incremental.

Os pilares da inovação em saúde digital

Segundo Jonas, a análise das transformações em curso foi estruturada a partir de três pilares da Interação Humano-Computador na saúde, que são Inteligência Artificial, Computação Ubíqua, Acessibilidade e Inclusão.

Com isso, explicou ele, a convergência desses elementos aponta para um cenário em que a tecnologia tende a se tornar cada vez mais integrada ao ambiente e menos perceptível ao usuário. Ou seja, mais “invisível”.

Para isso, o pesquisador trouxe alguns exemplos reais que ilustram o movimento de uma tecnologia invisível aplicada à saúde, como:

  • Documentação clínica ambiental via IA, com interfaces baseadas em voz e linguagem natural, que reduzem a necessidade de interação com telas, mas levantam questões sobre privacidade, LGPD e viés algorítmico.
  • Navegação cirúrgica com computação espacial, que utiliza rastreamento ocular e microgestos para interação sem contato físico, exigindo altos investimentos e atenção a aspectos regulatórios.
  • Interfaces cérebro-computador (BCI), capazes de converter diretamente a intenção do usuário em ação digital, trazendo à tona debates sobre privacidade mental e autonomia.
  • Avatares de triagem com IA afetiva, que simulam empatia em interações com pacientes, ao mesmo tempo em que colocam em questão vieses, uso de dados sensíveis e limites éticos.
  • Biomarcadores contínuos não invasivos, que permitem monitoramento passivo e acionamento apenas em situações críticas, mas podem gerar ansiedade, falsos positivos e novos tipos de discriminação.

O desafio estrutural: poder e soberania tecnológica

Para além das aplicações, a palestra destacou um ponto crítico: a concentração de poder nas mãos de grandes empresas de tecnologia. Nesse cenário, instituições de saúde podem se tornar dependentes de plataformas estrangeiras, configurando o que tem sido chamado de “feudalismo digital”.

Como caminhos possíveis, o pesquisador apontou caminhos como o fortalecimento da pesquisa aplicada em universidades públicas; o investimento em soluções nacionais, especialmente de código aberto; a criação de marcos regulatórios voltados à proteção de dados de saúde; e o desenvolvimento de infraestrutura própria de inteligência artificial.

Inovação, inclusão e responsabilidade

Um dos alertas centrais da palestra é que a inovação tecnológica, sem um olhar socialmente consciente, pode aprofundar desigualdades. Por isso, o desenvolvimento de soluções em saúde deve considerar, segundo o pesquisador, quem se beneficia e quem pode ser excluído; a inclusão de usuários finais desde o início do processo, especialmente populações vulneráveis; e a a construção de autonomia tecnológica e proteção de dados.

Uma nova definição de inovação

Ao final, a palestra propõe uma mudança de perspectiva: inovar não é apenas incorporar novas tecnologias, mas utilizá-las de forma a reduzir barreiras e recentrar o cuidado no humano.

A síntese dessa visão está na provocação que encerra a apresentação: a verdadeira inovação acontece quando a tecnologia deixa de ser protagonista e devolve ao profissional de saúde o tempo e a atenção necessários para olhar nos olhos do paciente.