Jogo Outlive 25 conecta gerações de programadores da UFPR com base em software livre

Remaster do clássico brasileiro, desenvolvido pela Continuum Entertainment, aposta em tecnologias abertas e reúne criadores originais e nova geração em torno de um marco dos games nacionais
O clássico brasileiro de estratégia em tempo real Outlive retorna oficialmente no dia 30 de abril com o lançamento de Outlive 25, desenvolvido pela Continuum Entertainment. A versão remasterizada que recoloca o jogo no circuito global já está disponível para acesso por meio da plataforma Steam. Mais do que uma atualização técnica, o projeto marca o reencontro de gerações de desenvolvedores formados no curso de Ciência da Computação da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Criado originalmente no fim dos anos 1990 por ex-alunos do curso de Ciência da Computação do Departamento de Informática (Dinf), Outlive foi o primeiro RTS brasileiro a alcançar o mercado internacional. Agora, 25 anos depois, a Continuum Entertainment reúne novamente sua equipe original ao lado de uma nova geração de programadores do próprio estúdio — em alguns casos, filhos dos criadores — formando uma continuidade rara na história dos videogames nacionais.
Equipe da Continuum no desenvolvimento do jogo original, na década de 1990
À frente do remaster, Alexandre Vrubel lidera a engenharia do projeto, enquanto Rafael Dolzan responde pelo game design. Ao lado deles, Henry Tanaka Baggio,Rodrigo Otávio Dal’Asta e Daniel Dolzan retomam funções técnicas e criativas. A nova geração é representada por nomes como Gabriel Dolzan, Gustavo Dal’Asta eDiego Dolzan, que agora participam diretamente do desenvolvimento — fechando um ciclo que atravessa duas décadas.
Ojogo, já disponível na plataforma Steam, inclui três fases da campanhare criadas, um novo tutorial, além do conteúdo original restaurado — como o tutorial clássico e mapas como Duelo e Combate.

Duas gerações de programadores se reúnem no desenvolvimento do Outlive 25
O gênero RTS (estratégia em tempo real), ao qual Outlive pertence, é marcado pela tomada de decisões simultâneas — sem turnos — exigindo do jogador controle de recursos, construção de bases e comando de unidades em tempo real. Foi esse modelo que aproximou o jogo brasileiro de títulos consagrados internacionalmente, rendendo-lhe o apelido de “StarCraft brasileiro”.
Mais do que atualizar gráficos, o desenvolvimento de Outlive 25 exigiu a reconstrução de uma arquitetura de software concebida para o Windows e o DirectX de 25 anos atrás. Nesse processo, o uso de software livre foi central:a equipe substituiu bibliotecas proprietárias e adotou tecnologias abertas como SDL 3 (camada de abstração multiplataforma), FFmpeg 7.1 (processamento de áudio e vídeo), FreeType 2 (renderização tipográfica) e Zlib 1.3.1 (compressão dedados). A escolha amplia a longevidade do projeto, facilita manutenção e abre caminho para futuras versões em diferentes sistemas operacionais.

A decisão de manter a base gráfica em 2D isométrico — uma escolha já presente no jogo original — foi preservada e aprimorada. Agora, os assets operam em 32bits, com novos níveis de transparência e suporte a zoom dinâmico, garantindo legibilidade e fidelidade estética mesmo em resoluções modernas. Um dos maiores desafios foi recuperar o material original, armazenado em CDs e discos rígidos deteriorados. Segundo a equipe, cerca de 99% dos arquivos — incluindo animações, trilhas e efeitos — foram resgatados, muitas vezes por meio de engenharia reversa em formatos proprietários.
Os menus também foram completamente redesenhados, com tipografia atualizada e suporte a múltiplas resoluções, além de uma nova tela de configurações acessível desde o início — um avanço significativo em relação à versão de 2000.
Legado, memória e continuidade entre gerações
Lançado em 2000, Outlive nasceu de um esforço independente de oito desenvolvedores em Curitiba, com orçamento aproximado de R$ 130 mil, financiado em parte por suas famílias. O jogo foi publicado internacionalmente pela Take-Two Interactive,alcançando mercados fora do Brasil e consolidando-se como um marco técnico e simbólico.
Mesmo com vendas modestas — cerca de 40 mil cópias no exterior e 10 mil no Brasil — o título conquistou reconhecimento por sua inteligência artificial, multiplayer para até 16 jogadores e inovação dentro do gênero. Com o tempo, tornou-se objeto de culto entre fãs e pesquisadores da história dos games no país.
O relançamento de Outlive não é apenas uma revisita ao passado, mas um exemplo concreto de como o desenvolvimento tecnológico também se constrói como legado humano. A presença de uma nova geração de programadores no projeto — formada no mesmo ambiente acadêmico dos criadores originais — evidencia a continuidade de conhecimentos, práticas e valores.
Nesse sentido, Outlive 25 não é apenas um produto: é a materialização de uma trajetória coletiva que atravessa o tempo, conecta pessoas e reafirma o potencial da formação pública em tecnologia no Brasil.